
(Artigo publicado na Revista Porbatata 2025 – 6.ª edição.)
Com os operadores já penalizados pela dificuldade em obter batata de semente – em especial de variedades e de calibres específicos – e pelo seu custo acrescido – o que contribuiu para agravar a conta de cultura –, a campanha de 2024-2025 teve os primeiros meses fortemente marcados por condições climatéricas adversas para as instalações e depois também para a aplicação de tratamentos e fertilização. A plantação no cedo foi difícil e, na maioria, as plantações foram tardias. Nos meses posteriores, as condições climatéricas também foram prejudiciais para o desenvolvimento da cultura, pelas oscilações de temperatura, pelas temperaturas elevadas e pelas ondas de calor. A produtividade, a qualidade e os calibres sofreram bastante com a combinação destes fatores, tendo na maioria ficado aquém do pretendido. Na vertente do comércio, a muita batata velha europeia disponível (nomeadamente de França), a antecipação da entrada de batata nova europeia no mercado (com colheitas feitas mais cedo) e o excesso de oferta decorrente de produções altas em vários países bloquearam em grande parte a janela de exportação. Isto fez concentrar no mercado interno o produto nacional – sendo que terá havido também nesta campanha em Portugal algum reforço de áreas (na expetativa de um ano comercialmente interessante, após alguma subida de preços em 2024) –, trouxe também um volume considerável de batatas de menor qualidade, forçou a queda acentuada dos preços e aumentou a dificuldade em escoar produto.
Clima, produtividade e qualidade
O primeiro semestre de 2025 foi caracterizado por condições climatéricas adversas – em especial a precipitação intensa e contínua de janeiro até maio –, agravadas pela passagem da depressão Martinho, em Março. A chuva teve várias consequências: atrasos significativos nas plantações; excesso de água nos solos; dificuldade em efetuar operações nos campos; dificuldade em efectuar tratamentos e menor eficácia destes; falhas de emergência; menor tuberização; calibres mais baixos; menos tubérculos; perda de áreas cultivadas; quebras de produtividade (nomeadamente nas parcelas instaladas em dezembro e janeiro); condições propícias ao desenvolvimento de doenças (como o míldio); comprometimento da sanidade de alguns lotes. Na produção de fresco, os operadores reportam grande variação na produtividade entre campos, desde mínimos de 15 toneladas por hectare até máximos de 60 t/ha, com tendência para diminuição face às médias dos anos anteriores. Houve produtividades mais baixas nas colheitas de maio e depois um incremento de junho a agosto – ainda que as oscilações de temperaturas, com picos de calor, na fase final, também tenham gerado problemas. Na produção para fresco, há indicações de uma redução geral da qualidade, com Pedro Câmara, da Batatas Melendez, a assinalar que «a maioria dos campos apresentou muita sarna e junça, inviabilizando as batatas para lavado». Na produção de indústria, há relatos de uma qualidade global menor ou, ainda assim, boa.
Pragas, doenças e outros problemas
Na produção para fresco, são apontados problemas com junça e sarna (pulverulenta e comum) e a ocorrência de podridões, com reflexo negativo na qualidade da batata. Também é referido o míldio, com ataques por vezes severos, gerando quebras de produção. No Oeste, menciona-se igualmente, devido às plantações mais tardias do que o normal para a região, ataques de ácaros eriofídeos no primeiro terço do ciclo da cultura, «originando redução de área foliar e, consequentemente, redução na produtividade». «A traça da batata ocorreu com incidência pouco significativa. À colheita, verificaram-se quebras devido a podridões e deformações. Constatou-se mais tarde dificuldades de conservação em alguns lotes», comenta Nuno Cajão, da Louricoop. Sérgio Margaço, da Inter Portugal, destaca os danos causados pela junça e o facto de atualmente não existir «nenhum produto fitossanitário autorizado em Portugal, desde a retirada da substância ativa S-metolacloro», para o controlo desta infestante. Outros problemas fiotossanitários elencados são rizoctónia, pinta ferrugenta, alternaria, aranhiço e coração oco. Luís Azevedo, da Campotec, descreve a ocorrência de segundos crescimentos, devido a temperaturas elevadas, levando a alguma perda de produção. Na Primohorta, a sarna pulverulenta afectou a qualidade e diminuiu consideravelmente o volume de batata colocado pela empresa no mercado de consumo, face ao normal. Há ainda a salientar problemas como o aumento de custos com tratamentos e de maneio do campo ou a manutenção das dificuldades de recrutar mão-de-obra (José Cavaleiro, da Calcob, indica que houve alguns produtores com esse problema no âmbito do mercado tradicional de sacos de batata apanhada à mão). Por outro lado, baixaram os custos de rega.
Batata de semente
Sérgio Margaço, da Inter Portugal, explica que, para a campanha 24-25, «devido ao acréscimo de procura que se verificou, em cerca de metade das variedades, a STET não dispunha de capacidade de resposta». Sublinha ainda que os preços «repercutiram os aumentos de custos de produção nos produtores multiplicadores que se registaram após as crises que surgiram na Europa com a pandemia e a guerra» e que «a qualidade da batata de semente, em geral, estava boa a muito boa». Rubens Oliveira, da Germicopa, assinala atraso de colheita, calibres em falta e um aumento de preços em euros por tonelada (por pressão de preços da batata de consumo «muito altos» na campanha anterior) na campanha 24-25. A actual campanha afigura-se «muito diferente», com plantações em boas condições, cedo e com um pouco mais de área e boas condições de colheita, cedo, e previsão de semente de boa qualidade, disponibilidade normal e sem atrasos, sendo que «poderá haver alguma pressão sobre os preços». Tendo em vista a campanha 25-26, Sérgio Margaço refere que, «em resposta ao aumento da procura a nível global da batata de semente, os principais países europeus que multiplicam batata de semente aumentaram a área em 9,5% (fonte: FN3PT)» e que «as principais empresas de batata de semente reportam uma qualidade boa na colheita». «Perspetiva-se que, na maioria das variedades, exista disponibilidade, exceto se ocorrerem rejeições mais ou menos inesperadas por doenças. Espera-se uma menor proporção de calibres pequenos disponíveis (28/35 e eventualmente 35/45 em algumas variedades) e uma disponibilidade razoável de calibres médios e grandes. As expetativas vão no sentido de uma certa estabilidade dos preços, decorrente das atualizações ocorridas nas duas campanhas anteriores», acrescenta. André Sobral, da J. Sobral e Filhos, afirma que os preços da batata de semente na campanha 24-25 foram iguais aos da anterior. Para a próxima campanha, como se plantou um pouco mais, «é capaz de haver um bocadinho mais de semente, nada transcendente», sendo que «a multiplicação correu bem e a qualidade é boa (pelo menos, é o que se espera do que se vê em campo)» e, até à data, «não houve perdas de campos».
Comercialização e embalamento
Quem se dedica ao embalamento e comercialização frisa o excesso de oferta – por combinação de produto nacional e de muita batata de outros países, velha e nova, a preços muito baixos –, o que aumentou a pressão sobre o mercado e dificultou o escoamento. A Oliveira, Pinho e Filhos destaca que, «ao contrário do mercado externo, o mercado nacional, apesar de saturado, conseguiu manter os preços na batata vermelha. Claro que não eram os preços almejados, mas não houve um decréscimo tão acentuado como na batata branca, em que a oferta foi bastante superior à procura, muito devido à falta de exportação». Já a Calcob realça que a exportação «foi muito inferior à do ano passado», que «a procura por batatas portuguesas no mercado nacional foi relativamente baixa» e que «o consumidor vai ao preço, não vai ao nacional, ao contrário dos espanhóis e dos franceses». A Batatas Melendez assinala que na exportação «alguns contratos simplesmente não foram cumpridos, devido ao excesso de batata existente principalmente em França». Quanto a valor, ocorreram descidas de preços e de margens, «o que pressiona muito a sustentabilidade futura da cultura e a opção dos agricultores para a realizarem», nota Nuno Cajão, da Louricoop. Já a Oliveira, Pinho e Filhos sublinha que «os preços nesta campanha não acompanharam os custos tidos na cultura e isto, aliado às baixas produtividades, levou a que as margens fossem reduzidas, nulas ou mesmo que houvesse prejuízos em alguns casos». Sobre tendências, a Manuel Patrício elenca «uma redução da procura por artigos em embalagens de maior volume (como sacos de 5 kg) em detrimento de embalagens mais pequenas». «Infelizmente, o aspeto visual continua a ser o primeiro critério de compra do produto. Esta tendência reflete uma maior valorização da qualidade, origem e diferenciação do produto, em detrimento da quantidade. O consumidor mostra-se cada vez mais informado e exigente, valorizando a segurança alimentar, a qualidade e a adequação do produto a diferentes tipos de culinária. Esta tendência reforça a importância da diferenciação e da especialização no mercado, criando espaço para produtos com maior valor acrescentado. Adicionalmente, tem-se verificado uma maior exigência dos clientes quanto à certificação ambiental e à gestão responsável dos recursos hídricos», informa a empresa.
Indústria e IV Gama
Na IV Gama, a Oliveira, Pinho e Filhos refere que «esta campanha houve muito produto disponível e lotes com alguns problemas de pele, nomeadamente sarna pulverulenta, que não surte qualquer impacto negativo no descasque». Sobre a operação, salienta que «os baixos preços a que se transacionou a batata, a falta de escoamento, levou-nos a encontrar novas soluções, a selecionarmos clientes e a caminharmos com os parceiros que nos acompanham em todos os cenários». «A procura de batata de fresco, no seu geral, sofreu uma acentuada diminuição e a batata frita estagnou o seu crescimento. Apesar de a batata continuar a ser um alimento fulcral da dieta mediterrânea, a diminuição do poder de compra repercute-se nas vendas de supermercados, restauração e mercados tradicionais», comenta a empresa. José Cavaleiro, da Calcob, indica que as vendas na IV gama aumentaram, que esta vertente se mantém «em franco crescimento» e que, por existir mais concorrência no mercado, a matéria-prima com que se trabalha «tem de ser batatas com qualidade». Luís Azevedo, da Campotec, relata que a disponibilidade de matéria-prima «cada vez menos é um problema», que houve algum decréscimo do consumo de batata para fritar – com alguns clientes a substituírem esta por batata pré-frita (congelada) – e que no início da importação de batata de França para a produção própria de IV Gama não havia transporte disponível. Ricardo Guerra, da José Guerra, aponta uma campanha «longa e dura», com alguns incumprimentos de contratos, o que gerou alguma dificuldade em escoar a batata e «fez com que a campanha se prolongasse, pelo menos, mais dois meses do que estava previsto». Segundo Sérgio Margaço, da Inter Portugal, a existência de stocks elevados de batata de conservação em alguns países europeus em maio e junho «condicionou o início das entregas a alguns clientes, sobretudo fábricas que ainda estavam a abastecer-se de batata “velha”» na altura em que a colheita começou, em maio. A Torriba negociou contratos com manutenção ou acréscimo de preço (muito para suportar a subida do preço da semente) e, em geral, com incremento de áreas, num mercado em que se estimava haver menos batata do que efectivamente existia. Rodrigo Vinagre conta que os problemas de produtividade e atrasos nas primeiras instalações levaram a instalações já fora de época em terras mais leves, para satisfazer os contratos (em articulação com os clientes), e que, devido à chuva, tiveram grandes dificuldades na fertilização.
Perspetiva geral da campanha 2024-2025
Em geral, na vertente de fresco, considera-se que a campanha de 2024-2025 foi «irregular», «atípica», «repleta de desafios», «muito difícil» e «muito penalizadora» para todos os players do setor da batata, marcada por atrasos na produção em Portugal e em Espanha, antecipação de outras campanhas europeias, sobreposição de campanhas, aumento da oferta no mercado, quebras de produção, falta de qualidade (na produção para fresco e para indústria), aumento dos custos, diminuição significativa de preços à produção, fecho quase total das janelas de exportação para o norte da Europa e dificuldades de escoamento no mercado interno. A Oliveira, Pinho e Filhos destaca que o agricultor «não mediu esforços para tratar e, no final, viu o preço de venda abaixo da sua conta de cultura», que os intermediários «não conseguiram pagar o devido valor pelo produto e encontrar um leque diversificado de canais de escoamento» e que «mesmo para os clientes foi difícil, pois não cumprirem os contratos também não é o almejado». A Manuel Patrício aponta um «contexto desfavorável», com «uma quebra significativa na procura, acompanhada por uma descida acentuada dos preços de mercado e por uma redução generalizada da qualidade da batata, fortemente influenciada pelas condições meteorológicas adversas ao longo do ciclo produtivo». Frisa ainda que se registou «um reforço das exigências de certificação e conformidade por parte dos clientes em relação aos produtores nacionais, nomeadamente ao nível do uso sustentável da água. No entanto, as entidades competentes não acompanharam de forma eficaz estas exigências, criando obstáculos significativos para os produtores no cumprimento dos novos requisitos». Segundo Humberto Bizarro, com uma área plantada «muito menor» do que em anos anteriores (por antevisão de uma má campanha) e com produtividades mais baixas do que em 2024, a campanha da Hortapronta «resolveu-se de uma forma equilibrada, sem grandes problemas». No segmento de batata para lavar foi possível ter «preços justos à produção», mas isso já não aconteceu no segmento de sujo.
Campanha 2025-2026
Sendo ainda cedo para certezas absolutas, todas as perspetivas parecem possíveis na próxima campanha de produção para fresco, dependendo da estratégia e do entendimento do mercado por parte de cada operador: manutenção, aumento, mas também diminuição de área. A Oliveira, Pinho e Filhos garante que «vamos continuar a ser ponderados» e informa, tal como outros operadores, que, à data, «antevê-se que o mercado europeu terá bastante quantidade de batata». Na produção para indústria, em que as negociações estão a começar, fala-se da aparente intenção das indústrias de baixar os preços e numa eventual redução de áreas. A Calcob pretende manter a área, mas escolher entre o conjunto dos agricultores «as parcelas que nos dão mais segurança» (evitando terras «complicadas») e, a pedido dos produtores, «tentar aumentar a área contratada». José Cavaleiro acredita que, «no próximo ano, a exportação em maio e junho vai ser reduzida, porque há muitas batatas no mercado». Na Hortapronta, que tem vindo a diminuir áreas nos últimos cinco anos, a perspectiva é «manter a área ou talvez fazer um pouco menos», numa campanha que «não vai ser favorável», pela grande quantidade de batata existente nos produtores europeus. A Primohorta pretende fazer o mesmo programa, a Torriba está em negociações (onde «tentamos passar que é preciso, no mínimo, manter a valorização, porque os custos, na melhor das hipóteses, estabilizaram, mas continuam bastante altos», diz Rodrigo Vinagre) e a José Guerra ainda está a decidir se faz a mesma área ou menos. André Sobral, da J. Sobral e Filhos, salienta que, em 24-25, houve «muito agricultor que não era histórico de batata» a fazer esta cultura e defende que em 25-26 as áreas de batata em Portugal «vão decrescer», para «menos 30% de área, em geral». Na perspectiva de Rubens Oliveira, da Germicopa, «o mercado mais profissional está sob alguma pressão, seja para exportação ou para a indústria».
Nota: Este é um artigo disponível na 6ª edição da Revista Porbatata 2025. Pode ver mais artigos AQUI



